AIDS: 30 anos de uma guerra entre o ‘eu’ e o próprio corpo

“Nunca pensei na morte como uma solução para os meus problemas, mesmo sabendo que tenho uma doença incurável, mas controlada e considerada já crônica. Apesar de olhar para trás e ver o que me foi cortado, não me deixa deprimido; consegui outras coisas, que, talvez, sem o HIV, não tivesse conseguido”. Quem entra em cena é um guerreiro, que, há 21 anos, convive com o Vírus da Imunodeficiência Humana, o famoso HIV. Podemos denominá-lo de Maurício, um exemplo a ser seguido pelas pessoas que lutam, incansavelmente, pela vida em um duelo entre o ‘eu’ e o próprio corpo.

Sua transmissão partiu de uma relação sexual sem o uso do preservativo, a ‘camisinha’, em uma década em que poucos utilizavam esse artifício que salva vidas e evita, além da gestação indesejada, doenças transmissíveis. “Fiz o teste a pedido médico por causa de uma das doenças oportunistas, a Herpes Zoster, que, inicialmente, foi diagnosticada como uma pneumonia. Comecei o tratamento fora do Estado e depois fui cuidar da herpes. Meu médico me fez ver que aquilo não era o momento final” – ressalta.

Tanto ele quanto todas as pessoas que convivem com o HIV e com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) são assistidos à base de antirretrovirais, que, combinados com três ou mais medicamentos, constituem o Coquetel. De acordo com Maurício, o mais importante é estar vivo, seguir adiante com o tratamento e procurar informar-se acerca de outros métodos. “A outra alternativa seria uma vacina, que já vem sendo testada há algum tempo, mas sem o sucesso necessário para ser aplicada na população”.

Maurício afirma que o infectado deve chegar a um consenso entre o equilíbrio e a boa forma de viver, mantendo-se, assim, sempre alerta para resolver os problemas que surgirão ao longo da caminhada. “É matando um leão que conseguimos estabelecer este equilíbrio, formando um senso crítico mais apurado com relação a tudo, a alimentação e exercícios físicos. Eu me considero um vencedor, pois a fé em Deus é fundamental para se chegar lá. Na realidade, quando as coisas não foram boas, devemos tê-las parcialmente na mente, mas, nunca, se apegar a elas como trampolim pra crescer; existem outras técnicas de crescer sem sofrer” – salienta.

Outro vencedor da AIDS, há 16 anos, é Gustavo. Sua transmissão deu-se, também, por via sexual. Ele era casado quando contraiu o vírus, porém, sua esposa não foi infectada. “Hoje, sou um ex-soro discordante, ou seja, mesmo eu estando com o HIV, o vírus não se manifestou na minha esposa. Eu não sei com quem peguei nem procurei saber, porque a responsabilidade é dos dois” – enfatiza.

No momento em que soube que estava com o vírus, isolou-se por mais de 10 anos em casa e não queria conversar com ninguém. “A dificuldade era e ainda é se sentir um cidadão incluído na sociedade; é como se a gente tivesse vivendo dois momentos: em um, você é cidadão, mas deixa de ser depois que o mundo desaba em sua cabeça e você tem que enfrentar o meio social; no outro, você tem que formar novas bases para garantir nova legitimidade”.

Ao ser questionado sobre as vantagens para quem vive com AIDS, Gustavo evidencia que não vê grandes vantagens para quem convive com a situação, somente, a longevidade em meio à qualidade de vida. “Todos os direitos são reprimidos pela sociedade. Nós só conseguimos algo por meio do Ministério Público [MP]. A vantagem não é encontrada, pois há, sempre, uma luta interior. O quadro só vai mudar quando as pessoas olharem com outros olhos, como de acolhimento, aceitação, dignidade e igualdade”.

 

Tratamento e prevenção
Gazetaweb conversou com o médico infectologista Renee Oliveira acerca do tratamento e medidas preventivas. De acordo com ele, toda a medicação custa, em média, R$ 1.500. O HIV age atacando o Sistema Imunológico do paciente – onde estão as células CD4 [glóbulos brancos] – tornando o organismo extremamente frágil, incapaz de reagir às infecções. O teste anti-HIV é o procedimento correto para detectar a presença do vírus no paciente.
“Quando detectado, o tratamento é iniciado com o Coquetel antirretroviral, todos os dias, geralmente duas vezes ao dia e, após um ano, em média, ele já começa a perceber os resultados, ou seja, antes do tratamento, a carga viral representa 10 mil a 100 mil cópias do vírus; após esse período, a carga é considerada indetectável, a quantidade de vírus é tão pequena que não observamos mais. Em relação às células CD4, uma pessoa sem o vírus possui 700 CD4; já a infectada, apresentando 350 CD4 para baixo, deve tomar o medicamento, caso contrário, a pessoa pode contrair doenças, a exemplo da Meningite” – explica o especialista.

Todavia, o Coquetel, como todo remédio, desencadeia efeitos colaterais, como altos índices de triglicerídio (teor de gordura no sangue) e glicose (teor de açúcar no sangue). “O paciente sai de um quadro infeccioso e pode ir para um quadro degenerativo. É por este e outros motivos que é essencial uma alimentação adequada e atividades físicas desde o início do tratamento” – ressalta.

Quanto à prevenção, Renne Oliveira frisa a importância do uso do preservativo, cuidados com seringas, barbeadores, consumo de bebidas alcoólicas, drogas e, também, estar sempre informado acerca dos cuidados. “Todos devem saber que o compartilhamento de agulhas e seringas, relações sexuais por vias anal, oral e vaginal – sem camisinha, com pessoas infectadas -, certos instrumentos cortantes e o leite de uma gestante com vírus são formas de contrair a doença. Agora, beijo na boca, rosto, abraço, aperto de mão, uso de copos, sabonetes, suor, saliva, picada de inseto não transmitem o HIV”.

Diferenças entre HIV e AIDS

Renne Oliveira explica que há muitos soropositivos que vivem anos sem apresentar sintomas e sem desenvolver a doença. Entretanto, eles podem transmitir o vírus para outras pessoas, que podem, ou não, desenvolver a AIDS. “O infectado pelo HIV tem uma saúde normal, somente, um cansaço, problema nas pernas, memória fraca. Se o paciente não iniciar o tratamento, o vírus vai provocando danos até chegar ao ponto em que o Sistema de Defesa não será suficiente para bloquear as infecções ‘oportunistas’, e o paciente, que, antes, tinha só o vírus, agora, contrairá a AIDS, podendo sofrer hepatites, tuberculose, pneumonia e alguns tipos de câncer”.

Por que não foi encontrada ainda a cura para a Aids?

Segundo o infectologista, ao atingir o corpo, o vírus HIV instala-se em ‘santuários’, como os Sistemas Nervoso e Linfático. Desta maneira, o medicamento não consegue chegar até o local. “Quando o vírus fica, permanentemente, nos ‘santuários’, o coquetel não tem a eficiência para atingir o HIV. Por isso, o paciente não fica completamente curado, vai sempre conviver com o vírus”.

Doença não detectada
Seu nome é Maria das Dores da Silva, 40 anos, coordenadora das Cidadãs PositHIVas. Mãe e mulher que, há sete anos, luta para não contrair a AIDS e controlar o vírus. “Eu só lembro que tenho HIV por causa dos remédios, se não, estava no ‘banho Maria’, sem saber de nada. Eu não sei com quem contraí, só sei que foi por meio do sexo”.
‘Doca’, como é conhecida, ficou depressiva ao tomar conhecimento que tinha HIV, mas iniciou o tratamento. Após um ano, segundo ela, começou a participar de encontros e percebeu que a realidade era bem diferente. “Eu ia para as palestras e pensava que só tinha eu ou outra com o vírus; quando chegava nos encontros, via tanta mulher na mesma situação ou pior”.

No papel de mãe, não temeu nem se envergonhou em explicar o que tinha e as mudanças que aconteceriam na vida da família. “Sou separada e isso é mais um motivo pra eu ter compromisso com meus filhos. Quando minha menina tinha 14 – hoje com 17 – eu contei tudo, ela chorou e disse ‘mãe, estou aqui pra o que precisar’. Já meu filho, que tem 14, eu contei aos 13, ele reagiu um pouco diferente, mas me dá o apoio que necessito”.

Para ela, não há desvantagem em conviver com o vírus. “Eu tenho todas as vantagens. Viver com o HIV não é maravilhoso, mas, com ele, consegui enxergar a vida de outra forma. Realizei sonhos, um deles, andar de avião e conhecer outras praias, hotéis e tudo mais. O que eu digo é: não confiar. Usar sempre camisinha, porque quem ama cuida e o cuidar é você sempre se prevenir” – conclui ‘Doca’.

Evolução da doença

Segundo os números disponibilizados pelo Núcleo de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, através do programa de Análise Exploratória de Dados (TABWIN), constata-se que, mundialmente, o primeiro caso de AIDS surgiu em 1981; no Brasil, a primeira ocorrência deu-se em 1983, em uma pessoa com idade acima de 13 anos; já na capital alagoana, ocorreu em 1986, também em um indivíduo acima de 13 anos. Sete anos depois, em Maceió, surgia o primeiro caso em pessoa com idade abaixo dos 13. Somente no Estado de Alagoas, foram contabilizadas 3.122 ocorrências da doença. Deste número, 1.111 pessoas faleceram em decorrência da doença e outras causas. Atualmente, o percentual de indivíduos vivos totaliza 64,4%.

No período de 1993 a 2010, o total de casos de AIDS em crianças, no Estado, chegou a 83; em Maceió, 43; e, nos outros municípios, 40 casos. Os anos com maior incidência foram 2003, 2007, 2008 e 2009. No início da epidemia, a quantidade de casos em homens superou a de mulheres e a maior incidência, nos homossexuais. A partir de 2000, o número de casos aumentou em mulheres.

Onde fazer

Em Maceió, o tratamento pode ser realizado no Bloco I do PAM Salgadinho e nos ambulatórios dos Hospitais Universitário (HU) e Dr. Hélvio Alto. Segundo a coordenadora municipal do Projeto DST/AIDS, não há serviços de asssistência prestados no interior do Estado. “Não existe tratamento para os moradores dos municípios alagoanos. Nem mesmo em Arapiraca, eles são assistidos. Devido a isso, o paciente tem que se deslocar de qualquer cidade para ser atendido em Maceió”.

Projetos desenvolvidos

A Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e AIDS reúne-se na última quarta-feira de cada mês, no Bloco I do PAM Salgadinho, para discutir as dificuldades e avanços da doença. A partir dessas reuniões, o grupo promove palestras em todo o Estado. A ideia surgiu de movimentos nacionais que já vinham lutando há algum tempo. Atualmente, a rede é composta por 30 membros.

Outra iniciativa é o grupo das Cidadãs PositHIVas, sob a coordenação de Maria das Dores, a ‘Doca’. É um grupo voltado às mulheres, que promove reuniões e encontros nacionais em prol de uma maior consciência sobre o HIV e a AIDS. Quem quiser participar do grupo, pode entrar em contato pelo número (82) 9103-7408.

Fonte: Gazeta Web

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