Cientistas curam HIV de camundongo, informa Folha de S.Paulo

O sistema imune dos animais foi manipulado para lutar até o fim contra uma variação do vírus que os atinge.

Resultado é promissor, mas quantidade muito elevada de efeitos colaterais faz com que técnica seja insegura.

Eis um enunciado científico muito aguardado: cientistas curaram uma doença similar à aids, em camundongos. Há, porém, um grande entretanto: os bichos ficaram sem uma variação do HIV que atinge a espécie, mas tiveram tantos efeitos colaterais após o “tratamento” que quase morreram.

Os cientistas não utilizaram antivirais. Forçaram o próprio sistema imunológico dos animais a lutar contra o vírus -e, surpreendentemente, ele conseguiu vencer.

Eles sabiam que o sistema imunológico dos camundongos, assim como o dos humanos, tem uma espécies de disjuntor. Quando ele se depara com um inimigo muito forte, como o HIV, e atinge um estado crítico, o disjuntor “desliga” o sistema, para evitar danos permanentes. É como se o sistema imunológico estivesse se rendendo.

O disjuntor é um gene chamado SOCS3, que libera um proteína de mesmo nome que faz o serviço de “derrubar” a defesa do organismo.

O líder do estudo, o médico Marc Pellegrini, do Instituto Walter e Eliza Hall, na Austrália, pensou: e se tirarmos esse disjuntor e deixarmos o sistema imunológico prosseguir defendendo o organismo até as últimas consequências, o que acontece?

Foi como se Pellegrini estivesse disposto a pagar para ver o preço de um “superaquecimento” do organismo -para manter a analogia, ele apostou que, após o cheiro de queimado e até incêndios terem destruído permanentemente a “estrutura” do sistema imunológico, o corpo ao menos se livraria do vírus.

Os pesquisadores, então, utilizaram um hormônio para nocautear o SOCS3 nos camundongos -a expressão que eles usam é essa, como se o gene fosse um boxeador perdendo os sentidos depois de levar uma pancada.

Sem o SOCS3, a guerra entre o sistema imunológico e o vírus seguiu até que um deles se esgotasse.

A experiência mostrou que Pellegrini estava certo. Após 60 dias, já não era possível encontrar o vírus em nenhum dos ratos do pesquisador -e só eles sabem o mal que devem ter passado nesse intervalo, com o seu sistema imunológico “fora de controle”, obcecado por acabar com o vírus a qualquer custo.

O “superaquecimento” do sistema imunológico não ficou de graça: a saúde dos animais ficou danificada após esse processo.

Efeitos Colaterais

Os bichos desenvolveram graves e recorrentes inflamações, além de vários tipos de doenças autoimunes -quando o organismo perde a capacidade de reconhecer a si mesmo e passa a se atacar, considerando invasoras as suas próprias células.

Os pesquisadores dizem que ainda há muito a descobrir sobre como esses efeitos colaterais se desenvolvem. Por enquanto, portanto, a técnica é insegura demais para ser testada em seres humanos, ainda que os mecanismos de reação do sistema imunológico relevantes para a técnica sejam iguais aos dos camundongos.

Como a técnica não é específica para o HIV, os cientistas acreditam que ela funcione também com outras doenças, como as hepatites B e C e também a tuberculose.

O trabalho foi publicado na revista científica “Cell”.

Infecções crônicas atingem várias espécies

Várias espécies são vítimas de infecções crônicas que se espalham pelo organismo e que o sistema imunológico não consegue vencer -são variações do HIV, que, como o seu próprio nome diz (vírus da imunodeficiência humana, na sigla em inglês) denota apenas o vírus que ataca o Homo sapiens.
O equivalente do HIV em macacos, por exemplo, é o vírus da imunodeficiência símia (SIV, na sigla em inglês).

O vírus que ataca os camungongos e foi vencido na pesquisa é conhecido como vírus da coriomeningite linfocítica. Assim como alguns humanos com HIV, há também camundongos que passam a vida inteira com o vírus sem ter maiores complicações.

A técnica desenvolvida no instituto australiano serviria para qualquer uma dessas doenças, dizem os pesquisadores.

Apesar de ser um caminho promissor, ainda é difícil estimar, entretanto, quantos anos serão necessários até que ela seja segura o suficiente para inspirar uma cura da aids em seres humanos.

Fonte: Folha de S.Paulo

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