30 ANOS DEPOIS – VÍDEOS DO FANTÁSTICO SOBRE AIDS

Neste ano completa 30 anos que a AIDS foi descoberta. E o programa Fantástico, da TV GLOBO, preparou uma série de reportagens, no início do ano, abordando justamente o tema através de informações gerais e mostrando a evolução de tratamento e da doença ao longo destas três décadas. Segue:

 

Empresas holandesas não querem portadores de HIV

Roy, que trabalha na área de saúde, descobriu há dois anos que é portador do vírus HIV. Ele contou a sua chefe, que não teve uma resposta empática:

“Ela achou que eu podia continuar fazendo todo tipo de serviço. Achou necessário avisar a direção e o departamento pessoal e também pediu que eu usasse luvas sempre que estivesse atendendo uma pessoa.”

A chefe de Roy o viu como fonte de contaminação. Um risco para seus colegas e para os pacientes. Mas o HIV não é transmissível no contato social normal.

Suspeita
A história de Roy não é única. Muitos portadores de HIV comentam que chefes e empregadores não os querem. Uma pesquisa do Aids Fonds demonstrou que quase metade das empresas holandesas prefere não contratar portadores de HIV para cargos fixos. Além disso, oito em cada dez gerentes acham que o candidato a um emprego deve avisar que tem HIV.

Isto não é lei. Um candidato a emprego não é obrigado a avisar sobre doenças, exceto caso o tornem inadequado para a função.

A suspeita é grande. Empresas não querem funcionários com HIV porque acreditam que eles ficariam doentes com mais frequência. Empregadores também querem reduzir ao máximo a chance de infecção de outros funcionários.

Nos dois pontos estão errados, diz o Aids Fonds, o que mostra que ainda há enorme falta de informação sobre a doença, comenta Ton Coenen, diretor da organização.

“Sabemos por pesquisas que o risco de mais faltas provocadas por doença não acontece. Portadores de HIV têm uma doença crônica que não provoca mais faltas ao trabalho. O segundo ponto é ainda mais sério no sentido do desconhecimento que deixa transparecer, a ideia de que se você tem alguém com HIV em sua empresa isso pode, potencialmente, infectar outros funcionários. Não faço ideia de como algo assim poderia acontecer se não houver contato sexual ou contato de sangue. E isso raramente, quase nunca, acontece no ambiente de trabalho.”

Mal-entendido

De acordo com o Aids Fonds, portadores de HIV são estigmatizados tanto por pessoas com alta como com baixa escolaridade. E portanto, também por empregadores e colegas de trabalho. O Aids Fonds realiza desde 2009 uma campanha para acabar com os mal-entendidos sobre a doença.E nisso recebe o apoio da organização patronal holandesa VNO-NCW, que acredita que mais informação é a solução para a estigmatização de pacientes com HIV.

Para Roy isso não aconteceu em seu antigo emprego. Ele pediu demissão e decidiu recomeçar. A compreensão e conhecimento sobre HIV-Aids varia muito de empresa para empresa, acredita Roy: “Tenho um novo patrão e a única coisa que posso dizer é que é excelente. Tenho recebido muito apoio e boas reações dos colegas.”

Fonte: Radio Nederland

300 mortes por ano no Ceará

A comerciária Maria Júlia ainda chora a perda do irmão, Pedro, para a Aids. Por medo e negação à própria doença, ele só procurou ajuda médica no estágio muito avançado da enfermidade e não teve mais como reverter seu quadro. O drama enfrentado por essa família é o mesmo vivenciado por outras no Estado. E não é para menos. Estudo coordenado pelo pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Grangeiro, mostra que 40% da mortalidade de Aids no Brasil está associada ao diagnóstico tardio e ao abandono ao tratamento.

No Ceará, segundo dados do Núcleo de Prevenção e Controle de Doenças (Nuprev) da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), 300 pessoas morrem por ano somente no Hospital São José (HSJ). “A maior parte deles já chega ao hospital direto para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI)”, afirma a coordenadora do Nuprev, Telma Martins.

Para ela, os números poderiam ser menores. E deveriam ser mesmo. De acordo com o estudo da USP, uma pessoa que inicia tardiamente o tratamento tem um risco 49 vezes maior de morrer do que outra que começa o acompanhamento no período adequado e toma de forma correta os retrovirais.

Fatores

Telma atribui o atraso do diagnóstico a uma série de fatores. Parte da população tem dificuldade de acesso a serviços de saúde; outra, resiste em procurar médicos. “Mas há ainda dois fatores fundamentais: pessoas não se consideram sob o risco da infecção, além do estigma que ainda envolve a doença”, aponta. O preconceito, machismo e desinformação também potencializam o problema. “A Aids não tem cura. Isso é ponto. A partir daí, não se deve abandonar o tratamento por achar que melhorou e vai ficar bom”, diz.

O médico e diretor do Hospital São José, Anastácio Queiroz, aponta a má qualidade de vida, a falta de apoio da família e o baixo nível cultural como causas da condição do paciente. “Tem caso que ninguém acredita de tão inexplicável”, lamenta.

É exemplo o doente que não lembra se tomou o medicamento adequadamente ou o nome dos remédios que fazem parte de seu coquetel e vive necessitando de internação. “Esse tipo de paciente pode até melhorar no hospital, mas quando sai, não demora uma semana, precisa retornar porque deixa para lá todas as recomendações feitas”.

As infecções oportunistas- causa das complicações do paciente com HIV- segundo o diretor, são as principais responsáveis pela lotação dos 32 leitos da enfermaria de Aids do hospital, que muitas vezes recebe pacientes além da sua capacidade.

O aumento da Aids em todos os níveis, seja entre os mais velhos ou jovens ou pela transmissão vertical, de mãe para filho durante a gestação, mostra a gravidade do problema, aponta. “Por ter tratamento e ter se tornado uma doença crônica, as pessoas relaxaram com a prevenção, o que é lamentável”.

Anastácio observa que o diagnóstico tardio é um problema há tempos identificado pelas autoridades sanitárias. “Várias iniciativas vêm sendo adotadas ao longo dos últimos anos: a oferta de testes rápidos e campanhas informando a importância do diagnóstico precoce”.

Em Fortaleza, exemplifica, existe o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que funciona na Rua Jacinto Matos, no bairro Jacarecanga. “Ali, a pessoa faz o teste sem burocracia ou fila, facilitando a vida dele, pois quanto mais cedo, mas adequado e com melhor resultado o tratamento”, diz.

Além disso, unidades de saúde, em Fortaleza, oferecem serviços ambulatoriais de referência como os hospitais São José, Universitário, Albert Sabin, Geral (HGF), Nossa Senhora da Conceição, Gonzaguinhas de Messejana e José Walter e Centro de Especialidades Médicas José de Alencar (Cemja).

Dados

No ano passado, a Aids vitimou quase duas pessoas por dia no Estado. Foram registrados 632 novos casos, numa incidência de 7,48. Ou seja, a cada 100 mil pessoas, quase oito contraíram a doença. Em quase 30 anos da Síndrome no Ceará, desde o aparecimento e comprovação do primeiro caso, em 1983, a Aids atingiu 10.092 cearenses. Desse total, 3.356 estão na categoria dos heterossexuais, sendo 1.407 homens e 1.949 mulheres. A faixa etária que vai dos 20 aos 49 anos é a mais infectada, com 8.966 casos confirmados.

Atualmente, afirma a infectologista Maria Nazaré Diniz, está completamente descartada a existência de um grupo de risco. Todos correm perigo. Não existe mais um determinado grupo como se pensava inicialmente – homens, mulheres, idosos e crianças, heteros, bissexuais, homossexuais, prostitutas, donas de casa, mecânicos, bombeiros, médicos, professores, artistas, estudantes – qualquer um pode ser atingido pelo chamado mal do século. “E isso não deve ser minimizado ou ignorado”.

Na avaliação da coordenadora do Nuprev, Telma Martins, os gestores públicos esqueceram o perigo da doença e só falam em dengue. “Alertar para a dengue é importante, mas não se pode subestimar a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) como a Sífilis congênita, que registra 550 novos casos a cada ano”, salienta.

Ela adianta que um dos maiores desafios da área médica é disponibilizar camisinhas nas escolas das redes pública e privadas do Ceará. “É complicado. A própria diretoria barra a questão com medo da reação dos pais dos alunos”.

A ideia surgiu depois que o Ministério da Saúde, em parceria com o Unicef, fez uma pesquisa e descobriu que os adolescentes têm dificuldade de acesso ao preservativo. Por isso, escolheu a escola para encurtar este caminho. “Não é incentivar a vida sexual mais cedo, mas é bobagem achar que um adolescente não necessite de informações sobre a Aids e DSTs”. Na visão da psicopedagoga, Maria do Livramento Araújo, as escolas não estão preparadas para o assunto e não apoiam a iniciativa.

Indiferença

“Gestores só querem falar em dengue e esquecem que a Aids acaba matando”

“O maior desafio é disponibilizar camisinhas nas escolas do Estado”

Telma Martins
Coordenadora do Núcleo de Prevenção da Aids da Sesa

PROBLEMA

Desinformação dificulta tratamento rápido e correto

O que pode ser feito para evitar a infecção pelo HIV (vírus transmissor da Aids) depois, por exemplo, de uma relação sexual de risco, onde a camisinha rompe? A dúvida, infelizmente, não é só de quem passa por essa situação, mas de muitos profissionais de unidades especializadas em DST/Aids no País.

A questão é tão preocupante que o assunto foi tema de congresso da Sociedade Brasileira de DST e determinante para que o Ministério da Saúde pudesse indicar aos Estados a necessidade de melhor capacitar pessoal da área para a chamada profilaxia. A Secretaria de Saúde reconhece o problema. Só para se ter ideia, dos 10.092 casos confirmados da Aids no Estado, 2.443 estão na categoria ignorado. Ou seja, na hora de preencher a ficha epidemiológica, houve falha do profissional que prestou atendimento. “Isso dificulta demais o nosso trabalho e pesquisas e comprova onde precisamos reforçar as ações”, afirma Telma Martins.

Tanto que neste ano, investir na capacitação dos profissionais da área é prioridade. Até o fim do ano, 3.253 deles passarão por cursos, incluindo os que atuam em presídios e os da atenção básica dos municípios.

“A informação faz a diferença”, avalia especialista. Ela evitaria, por exemplo, o constrangimento enfrentado por uma enfermeira que, tendo o seu teste positivo para HIV, está sendo “convidada” a pedir demissão. “Não vou citar o município e nem o nome da pessoa, mas isso, depois de quase três décadas da doença entre nós e com tantas campanhas, ainda é visto aqui no Ceará”, lamenta Telma.

Fonte: Diário do Nordeste

Soropositiva é condenada por transmitir intencionalmente vírus a parceiros em cidade catarinense

O Tribunal de Justiça confirmou sentença prolatada no Vale do Itajaí, e manteve a condenação imposta a uma mulher portadora de AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), que mantinha relações sexuais com vários parceiros, sem avisá-los que possuía a doença. Em decisão da 2ª Câmara Criminal, ela foi condenada à pena de dois anos e um mês de reclusão, em regime aberto, pelos crimes de perigo de contágio de moléstia grave e falsidade ideológica, já que também fraudou um teste de DNA. A sanção acabou substituída por prestação pecuniária e serviços comunitários.

Conforme a denúncia, em agosto de 2005, a acusada, com o intuito de mostrar aos antigos companheiros que não portava o vírus HIV, solicitou a uma amiga que fizesse o exame em seu nome. No mesmo mês, na coleta de sangue, a cúmplice utilizou a certidão de nascimento da ré, para se passar por ela. Inconformada com o veredicto de 1º grau, a sentenciada apelou para o TJ e postulou a minoração das penas para o mínimo legal.

“As consequências são desfavoráveis à apelante, pois, de posse do exame laboratorial falso, o utilizou para ludibriar terceiros quanto ao seu verdadeiro estado de saúde, colocando-os na iminência de ter a saúde comprometida de forma incurável”, comentou o relator da matéria, desembargador substituto Túlio Pinheiro, ao negar acolhimento ao pleito. Por fim, a câmara fez pequena redução no tocante à dosimetria da pena. A decisão foi unânime.

Fonte: Rádio Criciúma

Envelhecer com Aids cria novos desafios

Envelhecer com Aids é algo que as gerações que contraíram a doença não consideravam possível nos anos 1980 e 1990. O tempo passou e, contra todos os prognósticos, conseguiram envelhecer, mas muitos têm seus problemas de saúde multiplicados, assim como os econômicos.

A Aids quase matou Lou Grosso há 30 anos. Mas isso não o preparou para a última notícia recebida de seu médico: é portador de problemas cardíacos.

Com 57 anos, Lou também sofre de dores nas articulações e perda de memória. Dos 14 medicamentos que toma diariamente, apenas três são para lutar contra sua condição de soropositivo.

“Sempre digo a meus médicos: vocês se preocupam com o HIV, mas eu vou morrer de um ataque do coração”, explicou à AFP.

“Isso me preocupa, tenho uma vida agradável e não quero que ela seja curta só porque meu corpo pensa que tenho 80 anos”, completou.

Enquanto a atenção – e o dinheiro – foram destinados nos últimos anos para lutar contra os estragos provocados pela epidemia na África, os especialistas preocupam-se, agora, com uma nova crise do HIV.

Com a criação há 15 anos dos antirretrovirais, uma geração de pessoas portadoras do vírus sobreviveu e envelheceu. Suas complicações de saúde são inéditas, assim como os efeitos da doença no longo prazo e os problemas financeiros que não pensavam que chegariam a enfrentar.

Lou Grosso, pioneiro na programação de softwares de informática nos anos 1980, ainda se surpreende por ter vivido para aprender a criar sites. Mas, hoje, está preocupado com a perda de memória de fatos mais recentes.

Um estudo atual revelou que 52% dos americanos soropositivos sofrem distúrbios cognitivos, contra 10% entre os soronegativos.

Os portadores de HIV com mais de 55 anos são três vezes mais passíveis de desenvolver uma doença crônica, como a osteoporose, diabetes ou câncer, na comparação com as pessoas soronegativas de 70 anos, segundo um estudo da American Academy of HIV Medicine.

No início da epidemia, os pacientes do doutor Brad Hare, que atende Lou Grosso, no Hospital Geral de San Francisco (Califórnia), morriam muito jovens.

Hoje, mais de um quarto deles supera os 50 anos, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e a idade média das 3.000 pessoas atendidas pelo doutor Hare é 47 anos.

“Os pacientes dizem que estão cansados: lutamos contra o HIV durante 30 anos, conseguimos controlá-lo e, agora, aparece uma nova bateria de problemas de saúde”, explica o médico.

Os cientistas recentemente começaram a examinar a origem desses novos problemas, para determinar se estão vinculados à doença, se são efeitos dos remédios ou se são apenas sinais naturais de envelhecimento.

Até recentemente, havia poucas pessoas mais velhas com HIV para serem estudadas.

Os desafios propostos pelo envelhecimento com Aids não são apenas clínicos.

Especialistas também se preocupam com pacientes como Vicki Davidson, que tentou abandonar seu tratamento contra o HIV durante um período particularmente solitário durante o inverno.

Vicki, 64, contraiu HIV em 1986 de uma transfusão de sangue depois de ter ficado presa em um incêndio.

Ela teve de realizar duas cirurgias nos quadris aos 50 anos e sofre de fadiga crônica. Mas o que realmente a deprime é o isolamento social – os dias passados em casa, a dificuldade de conhecer pessoas.

Como muitos sobreviventes de longo prazo, Vicki pensa que pode soar incoerente reclamar das consequências do envelhecimento com HIV quando por tantos anos sobreviver era a principal preocupação.

“Não quero que as pessoas pensem que sou uma ‘reclamona’, então ajo como se não fosse nada importante. Mas nos meus momentos de solidão, penso que seria legal ter um companheiro.”

Soropositivos de longa data têm 13 vezes mais chances de sofrer de depressão que outros americanos, de acordo com um estudo de 2006 da Aids Community Research Initiative of America.

Pacientes mais velhos também têm mais chances de ficar desempregados e sem dinheiro do que os soronegativos, de acordo com um estudo da Terrence Higgins Trust.

Lou Grosso teve sua fatia de dificuldades financeiras – ele até mesmo passou algum tempo de sua vida morando nas ruas.

Agora ele mora em uma casa subsidiada para pessoas com Aids e se tornou voluntário para estudos clínicos.

Grosso, que ama livros de ficção científica, se vê como uma “cobaia” para as próximas gerações.

“Por que eu ainda estou aqui?”, pergunta. “Há uma razão pela qual eu ainda estou vivo, e quero que alguém a descubra.”

Fonte: AFP

Folha de S.Paulo resgata histórico da cobertura do jornal sobre a aids

“Todos os doentes são homossexuais masculinos, que não se conhecem entre si e que residem em grandes centros dos Estados Unidos.”

“Os sintomas são diversos, desde uma grande fraqueza física e febre persistente até a perde de peso e de apetite. Esse quadro, aparentemente banal, transforma-se rapidamente em caso grave.”

Foi assim que a Folha noticiou, Em novembro de 1982, o surgimento da aids, doença que viria a ser uma das grandes catástrofes epidemiológicas do século -com 1,8milhão de mortos e 33 milhões de infectados no mundo todoem2009, segundo os últimos dados disponíveis.

Toda a cobertura da doença, desde sua aparição, está documentada no site do Acervo Folha (acervo.folha.com.br), que oferece a integra do arquivo do jornal.

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS, na sigla em inglês que se popularizou no Brasil; SIDA, em Portugal) teve seus primeiros casos diagnosticados 30 anos atrás, nos EUA. Em 1981, ela foi reconhecida pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças do país.

Na época em que se publicou o primeiro texto da Folha sobre a síndrome, ainda não se sabia o que a causava. Só em 1983 o cientista francês Luc Montagnier conseguiria Isolar o vírus HIV.

Num artigo publicado em maio de 1983, o jornalista científico José Reis (1907- 2002), fundador da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e ex-diretor de Redação da Folha, já alertava para as dimensões que a doença poderia assumir.

“Por enquanto, aids está afetando número relativamente pequeno de pessoas, mas com alta mortalidade. E tende a alastrar-se, seguindo, para alguns,o modelo de transmissão da hepatite B. Teme-se, por isso, que represente ameaça aos bancos de sangue”,escreveu Reis.

Psicose coletiva

Os casos da doença evoluiriam em grande velocidade até se transformarem em motivo de pânico global. Em 7/ 6/1983, a Folha noticiou a morte do estilista Markito, primeiro caso conhecido de brasileiro vitimado HIV.

E, em julho desse ano, texto de alto de página definia a reação à aids como “psicose coletiva”, com a estimativa de que atingiria 1,6 milhão de pessoas em cinco anos.

Nos anos seguintes, o jornal daria atenção tanto à progressão geométrica dos infectados no Brasil e no mundo (“Casos de aids crescem geometricamente em SP”, 8/7/1984)quanto a opiniões variadas sobre o assunto.

Em artigo na edição de 20 de julho de 1985, por exemplo, o antropólogo argentino Néstor Perlongher -que morreria sete anos depois, vítima da aids – apontava riscos de estigmatização e do que chamou “policiamento médico”dos homossexuais.

Mudança de perfil

Em 22/2/1987, a Folha publicou caderno especial sobre a doença, cujos temas eram o uso de preservativos e a mudança no comportamento sexual dos brasileiros.

Em maio de 1988,a capa já destacava que o HIV passara a infectar mais heterossexuais; o combate à aids passaria a ser focado em comportamentos de risco, e não mais em “grupos de risco”.

Só em janeiro daquele ano o então presidente, José Sarney, sancionou a lei que tornou obrigatórios testes anti-aids em transfusões de sangue. Uma contaminação por transfusão, então frequente, matara o cartunista Henfil semanas antes (5/1/1988).

Avanço na África

Nas décadas posteriores, o noticiário da Folha deu amplo destaque ao surgimento de remédios contra a aids.

Na capa de 5/11/1996,uma boa notícia virou manchete: “Morte por aids cai 50% com coquetel”.O texto referia-se à terapia com três drogas que reduzira à metade o índice de mortalidade em centros médicos dos EUA e da Europa.

A virada do século 20 para o 21 se caracterizaria pelo recuo da doença nos EUA (28/ 2/1997) e por sua expansão na África, onde as mortes causadas pelo vírus HIV já eram17milhões até 2001.

Em 2003, calculava-se que as drogas anti- aids chegavam a apenas 1% dos pacientes no continente africano.

Nos últimos dez anos, o jornal registrou uma série de notícias positivas, como a quebra de patentes de remédios pelo Brasil (25/6/2005), a obtenção de uma vacina com 31% de eficácia (25/9/ 2009) e o declínio da epidemia no mundo ( 24/11/2010).

Fonte: Folha de S.Paulo

Camisinha deve ser a principal, mas não a única forma de prevenir o HIV, defende ativista Mário Scheffer em artigo para O Globo

Está em curso uma revolução na prevenção do HIV. Cada vez mais evidências comprovam que o uso correto de medicamentos antirretrovirais reduz drasticamente o risco de transmissão do vírus em relações sexuais.

Ao baixar a níveis indetectáveis a quantidade de vírus que circula no sangue e nas secreções genitais, o tratamento adequado, seguido à risca, com adesão do paciente, quase elimina a possibilidade de um portador transmitir o HIV para outra pessoa.

Se todos que se expõem ao risco de infecção tiverem acesso ao teste de HIV o quanto antes e, diante do resultado positivo, iniciarem o tratamento no momento certo, aciona-se um freio sem precedentes no avanço da aids.

Além do proveito terapêutico individual, o tratamento firmou-se como um benefício preventivo global.

Num estudo de resultados ainda cautelosos, com a chamada profilaxia pré-exposição, indivíduos expostos ao risco, ao tomar medicamentos anti-aids, registraram muito mais proteção contra a infecção pelo HIV.

O tratamento antirretroviral de urgência – antes recomendado apenas para gestantes, vítimas de estupro e profissionais de saúde expostos ao vírus – agora já é preconizado para populações vulneráveis que tiveram relações sexuais desprotegidas.

O controle da aids sempre dependerá do comportamento das pessoas e de fatores sociais e culturais. Daí a importância de políticas inclusivas e de direitos humanos, que estimulem situações mais favoráveis à prevenção.

Obviamente, a prioridade continua a ser o uso consistente do preservativo por todos, na maioria das relações sexuais, e por toda a vida. Mas, se tomada como única alternativa, essa política infelizmente se mostra um fracasso retumbante.

O uso dos antirretrovirais como ferramenta para conter a epidemia de aids traz embutido, é fato, o risco de que os interesses comerciais da indústria farmacêutica passem a pautar a política de prevenção. Há que se lembrar, por outro lado, que a simples noção de que a aids tem remédio já mostrou ter um efeito colateral perigoso, ao provocar o relaxamento nos hábitos de sexo seguro.

Além do mais, a ampliação do tratamento com fins preventivos exigiria do Brasil o incremento da sua capacidade de produção de genéricos e a radicalização do questionamento das atuais regras de propriedade intelectual e de patentes.

Por aqui, há mais pedras no caminho: a hegemonia daqueles que negam o perfil de uma epidemia concentrada, vacilantes em expor que alguns grupos e os grandes centros são afetados pelo HIV de forma mais contundente e, por isso, merecem políticas diferenciadas de prevenção; e o alto índice de diagnóstico tardio, com a chegada de milhares de pessoas já doentes de aids na rede de saúde, pois existem pelo menos 250 mil soropositivos que nem sequer sabem que têm o HIV.

É inescapável ao programa brasileiro de aids assumir a prevenção combinada, que consiste em conjugar o tratamento universal e oportuno, com a massificação da testagem rápida anti-HIV, os métodos comportamentais e o uso facilitado de preservativo masculinos, femininos e gel lubrificante, garantindo a livre decisão sobre as opções disponíveis de prevenção.

Para retomar a vanguarda perdida, o país precisa tirar do lugar indicadores estacionados, alterar radicalmente nos próximos anos a dinâmica da epidemia da aids, reduzindo o número de adoecimentos, de mortes e de novas infecções pelo HIV.

Fonte: O Globo