300 mortes por ano no Ceará

A comerciária Maria Júlia ainda chora a perda do irmão, Pedro, para a Aids. Por medo e negação à própria doença, ele só procurou ajuda médica no estágio muito avançado da enfermidade e não teve mais como reverter seu quadro. O drama enfrentado por essa família é o mesmo vivenciado por outras no Estado. E não é para menos. Estudo coordenado pelo pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Grangeiro, mostra que 40% da mortalidade de Aids no Brasil está associada ao diagnóstico tardio e ao abandono ao tratamento.

No Ceará, segundo dados do Núcleo de Prevenção e Controle de Doenças (Nuprev) da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa), 300 pessoas morrem por ano somente no Hospital São José (HSJ). “A maior parte deles já chega ao hospital direto para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI)”, afirma a coordenadora do Nuprev, Telma Martins.

Para ela, os números poderiam ser menores. E deveriam ser mesmo. De acordo com o estudo da USP, uma pessoa que inicia tardiamente o tratamento tem um risco 49 vezes maior de morrer do que outra que começa o acompanhamento no período adequado e toma de forma correta os retrovirais.

Fatores

Telma atribui o atraso do diagnóstico a uma série de fatores. Parte da população tem dificuldade de acesso a serviços de saúde; outra, resiste em procurar médicos. “Mas há ainda dois fatores fundamentais: pessoas não se consideram sob o risco da infecção, além do estigma que ainda envolve a doença”, aponta. O preconceito, machismo e desinformação também potencializam o problema. “A Aids não tem cura. Isso é ponto. A partir daí, não se deve abandonar o tratamento por achar que melhorou e vai ficar bom”, diz.

O médico e diretor do Hospital São José, Anastácio Queiroz, aponta a má qualidade de vida, a falta de apoio da família e o baixo nível cultural como causas da condição do paciente. “Tem caso que ninguém acredita de tão inexplicável”, lamenta.

É exemplo o doente que não lembra se tomou o medicamento adequadamente ou o nome dos remédios que fazem parte de seu coquetel e vive necessitando de internação. “Esse tipo de paciente pode até melhorar no hospital, mas quando sai, não demora uma semana, precisa retornar porque deixa para lá todas as recomendações feitas”.

As infecções oportunistas- causa das complicações do paciente com HIV- segundo o diretor, são as principais responsáveis pela lotação dos 32 leitos da enfermaria de Aids do hospital, que muitas vezes recebe pacientes além da sua capacidade.

O aumento da Aids em todos os níveis, seja entre os mais velhos ou jovens ou pela transmissão vertical, de mãe para filho durante a gestação, mostra a gravidade do problema, aponta. “Por ter tratamento e ter se tornado uma doença crônica, as pessoas relaxaram com a prevenção, o que é lamentável”.

Anastácio observa que o diagnóstico tardio é um problema há tempos identificado pelas autoridades sanitárias. “Várias iniciativas vêm sendo adotadas ao longo dos últimos anos: a oferta de testes rápidos e campanhas informando a importância do diagnóstico precoce”.

Em Fortaleza, exemplifica, existe o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que funciona na Rua Jacinto Matos, no bairro Jacarecanga. “Ali, a pessoa faz o teste sem burocracia ou fila, facilitando a vida dele, pois quanto mais cedo, mas adequado e com melhor resultado o tratamento”, diz.

Além disso, unidades de saúde, em Fortaleza, oferecem serviços ambulatoriais de referência como os hospitais São José, Universitário, Albert Sabin, Geral (HGF), Nossa Senhora da Conceição, Gonzaguinhas de Messejana e José Walter e Centro de Especialidades Médicas José de Alencar (Cemja).

Dados

No ano passado, a Aids vitimou quase duas pessoas por dia no Estado. Foram registrados 632 novos casos, numa incidência de 7,48. Ou seja, a cada 100 mil pessoas, quase oito contraíram a doença. Em quase 30 anos da Síndrome no Ceará, desde o aparecimento e comprovação do primeiro caso, em 1983, a Aids atingiu 10.092 cearenses. Desse total, 3.356 estão na categoria dos heterossexuais, sendo 1.407 homens e 1.949 mulheres. A faixa etária que vai dos 20 aos 49 anos é a mais infectada, com 8.966 casos confirmados.

Atualmente, afirma a infectologista Maria Nazaré Diniz, está completamente descartada a existência de um grupo de risco. Todos correm perigo. Não existe mais um determinado grupo como se pensava inicialmente – homens, mulheres, idosos e crianças, heteros, bissexuais, homossexuais, prostitutas, donas de casa, mecânicos, bombeiros, médicos, professores, artistas, estudantes – qualquer um pode ser atingido pelo chamado mal do século. “E isso não deve ser minimizado ou ignorado”.

Na avaliação da coordenadora do Nuprev, Telma Martins, os gestores públicos esqueceram o perigo da doença e só falam em dengue. “Alertar para a dengue é importante, mas não se pode subestimar a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) como a Sífilis congênita, que registra 550 novos casos a cada ano”, salienta.

Ela adianta que um dos maiores desafios da área médica é disponibilizar camisinhas nas escolas das redes pública e privadas do Ceará. “É complicado. A própria diretoria barra a questão com medo da reação dos pais dos alunos”.

A ideia surgiu depois que o Ministério da Saúde, em parceria com o Unicef, fez uma pesquisa e descobriu que os adolescentes têm dificuldade de acesso ao preservativo. Por isso, escolheu a escola para encurtar este caminho. “Não é incentivar a vida sexual mais cedo, mas é bobagem achar que um adolescente não necessite de informações sobre a Aids e DSTs”. Na visão da psicopedagoga, Maria do Livramento Araújo, as escolas não estão preparadas para o assunto e não apoiam a iniciativa.

Indiferença

“Gestores só querem falar em dengue e esquecem que a Aids acaba matando”

“O maior desafio é disponibilizar camisinhas nas escolas do Estado”

Telma Martins
Coordenadora do Núcleo de Prevenção da Aids da Sesa

PROBLEMA

Desinformação dificulta tratamento rápido e correto

O que pode ser feito para evitar a infecção pelo HIV (vírus transmissor da Aids) depois, por exemplo, de uma relação sexual de risco, onde a camisinha rompe? A dúvida, infelizmente, não é só de quem passa por essa situação, mas de muitos profissionais de unidades especializadas em DST/Aids no País.

A questão é tão preocupante que o assunto foi tema de congresso da Sociedade Brasileira de DST e determinante para que o Ministério da Saúde pudesse indicar aos Estados a necessidade de melhor capacitar pessoal da área para a chamada profilaxia. A Secretaria de Saúde reconhece o problema. Só para se ter ideia, dos 10.092 casos confirmados da Aids no Estado, 2.443 estão na categoria ignorado. Ou seja, na hora de preencher a ficha epidemiológica, houve falha do profissional que prestou atendimento. “Isso dificulta demais o nosso trabalho e pesquisas e comprova onde precisamos reforçar as ações”, afirma Telma Martins.

Tanto que neste ano, investir na capacitação dos profissionais da área é prioridade. Até o fim do ano, 3.253 deles passarão por cursos, incluindo os que atuam em presídios e os da atenção básica dos municípios.

“A informação faz a diferença”, avalia especialista. Ela evitaria, por exemplo, o constrangimento enfrentado por uma enfermeira que, tendo o seu teste positivo para HIV, está sendo “convidada” a pedir demissão. “Não vou citar o município e nem o nome da pessoa, mas isso, depois de quase três décadas da doença entre nós e com tantas campanhas, ainda é visto aqui no Ceará”, lamenta Telma.

Fonte: Diário do Nordeste

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