‘Maníaco da seringa’ é lenda urbana

Volta Redonda e Barra Mansa

Nos últimos meses uma história vem preocupando os moradores das cidades de Volta Redonda e Barra Mansa. O boato de que haveria pessoas infectadas com o vírus HIV, que estariam andando pelas cidades e passando o vírus para outras pessoas através de seringas contendo sangue contaminado, tem sido alvo de comentários em rodas de amigos, nas empresas, escolas e ruas, além é claro, da internet, onde o assunto tem sido amplamente divulgado através de e-mails e redes sociais. Na sessão “Fale Conosco” do DIÁRIO DO VALE, por exemplo, é comum o recebimento de mensagens relatando o caso.

Diante de tanta repercussão, não é difícil encontrar pessoas que não só acreditam na história, como estão preocupadas em serem atacadas pelos chamados “maníacos da seringa”.

Desde que o boato surgiu, muitas versões da história já foram contadas. Em Volta Redonda, por exemplo, acredita-se que não haveria apenas uma, mas duas pessoas tentando infectar a população com o vírus da AIDS. De acordo com informações divulgadas na internet, seriam dois homens, um moreno e um mulato, que estariam andando pela cidade e que já teriam atacado pessoas nos bairros Aterrado e Conforto e na Avenida Amaral Peixoto. Os maníacos teriam ainda preferência por atacar mulheres e crianças e já teriam sido vistos do lado de fora de escolas do município.

Já em Barra Mansa, a história vai além. O maníaco já teria sido identificado como morador do bairro Vista Alegre. O suspeito teria o vírus HIV e estaria aterrorizando os vizinhos, tentando infectá-los com uma seringa.

Delegados negam registro de ataques

O delegado titular da 90ª DP de Barra Mansa, Ronaldo Aparecido de Brito informou que a denúncia sobre o morador do bairro Vista Alegre foi investigada, mas que nada foi comprovado sobre o suspeito.

– Ficamos sabendo desse boato em julho, através de um vereador da cidade que me relatou a história durante uma reunião na Câmara Municipal de Barra Mansa. No mesmo dia, designei duas equipes para apurar o caso, mas quando eles foram procurar o suspeito, descobriram que ele tem distúrbios mentais e que inclusive, estaria internado em uma clínica psiquiátrica na época. Além disso, os familiares do suspeito negaram que ele tivesse cometido tal ato. Também foi verificado se havia alguma vítima de algum ataque desse tipo, já que os boatos davam conta de que uma moça teria sido atacada, mas ninguém foi encontrado. Como não houve nenhuma prova de culpa do suspeito e ninguém procurou a delegacia para registrar esse tipo de ocorrência, consideramos que esta foi uma denúncia que não procedeu  –  disse.

Ronaldo Aparecido informou ainda que não acredita que exista alguma pessoa na cidade realizando esse tipo de ataque, já que não houve nenhum registro na delegacia sobre o caso.

– Não acredito que essa história seja verdadeira, pois até hoje a delegacia não foi procurada por ninguém que alegasse ter sido vítima desse tipo de atentado. Acho que foi um boato que surgiu e que foi crescendo e se distorcendo ao longo do tempo, de forma que as pessoas passaram a acreditar que realmente fosse verdade – acrescentou.

O delegado de Volta Redonda, Antônio Furtado, também afirmou que não existe nenhum registro de atentado cometido pelo maníaco da seringa na cidade.

– Através de relatos nas ruas chegou ao conhecimento de alguns policiais que haveria um homem que estava andando pela cidade, tentando injetar sangue contaminado com o vírus HIV nas pessoas e que inclusive já teria atacado algumas pessoas. Isso aconteceu há mais ou menos um mês, mas até agora, ninguém foi encontrado. Ainda estamos investigando o caso e os policiais continuam alerta, mas não temos nada de concreto. Não posso afirmar que essa história não seja verdadeira, mas tudo está nos levando a crer que esse caso seja irreal, pois não tivemos nenhum registro desse tipo na delegacia. Realmente acho muito difícil uma pessoa sofrer um atentado como esse e não prestar queixa. Além disso, todas os elementos da história que já investigamos se mostraram falsos, o que poderia ser um indício de que o caso possa ser uma invenção – declarou.

Segundo o delegado, não há motivos para a preocupação da população, pois até o momento nada foi comprovado.

– Sabemos que a comunidade está preocupada com esse caso e por esse motivo, não deixaremos de ficar alerta a qualquer sinal de que essa situação esteja realmente acontecendo. Mas como não encontramos nenhum elemento que comprovasse a história, não há porque as pessoas temerem sofrer esse tipo de ataque. Mas gostaria de ressaltar que se por acaso alguém vir um indivíduo em atitude suspeita, que comunique os órgãos de segurança da cidade para que possam fazer a verificação. É importante que as pessoas não tomem nenhum tipo de atitude por conta própria e caso desconfiem de alguém ou vejam alguma coisa, recomendo que procurem as autoridades competentes – aconselhou.

Hospitais negam ter atendido vítimas

Em Volta Redonda, nenhum hospital da cidade relatou a existência de registro de pessoas que tenham procurado atendimento por terem sofrido ataque de alguém usando seringas.

Para o diretor geral do Hospital São João Batista, Sebastião Faria, a história é totalmente inverídica.

– Já ouvi falar sobre esse boato, mas acredito que não passe de mais uma lenda. Até porque no São João Batista, que é um dos principais hospitais da cidade, não tivemos nenhum atendimento dessa natureza – afirmou Faria.

No Hospital Municipal do Retiro também não há registro de ataques.

– Aqui no hospital não tivemos nenhum atendimento de pessoas que tivessem sido infectados por uma pessoa portando uma seringa com HIV. Acho que essa história é falsa, até porque se isso acontecesse, o primeiro lugar que as pessoas iriam procurar seriam os hospitais, o que certamente teria chegado ao conhecimento dos profissionais de saúde do município – destacou Adriane Campos, coordenadora geral do setor de enfermagem do hospital.

Em Barra Mansa, a situação não foi diferente. Na Santa Casa e na UPA (Unidade de Pronto Atendimento), locais que concentram um grande número de atendimentos na cidade, os profissionais de saúde foram unânimes em afirmar que não houve registro de nenhum atendimento de pessoas que tivessem relatado terem sido atacadas pelo maníaco da seringa.

– Não tivemos nenhum atendimento desse tipo aqui na UPA, não sei se houve alguma ocorrência em outras unidades de saúde, por isso não posso afirmar que não tenha ocorrido nada na cidade, mas acho pouco provável que essa história seja verdade – ressaltou o diretor geral da UPA, Carlos Gustavo Medeiros.

– Nunca chegou ninguém aqui na Santa Casa relatando esse tipo de acontecimento. Na minha opinião, se isso fosse verdade, nós teríamos ficado sabendo, pois o principal setor para esse tipo de atendimento é o Pronto Socorro – explicou a enfermeira Camila Beraldo, supervisora do Pronto Socorro da Santa Casa.

Lenda do ‘Homem da Seringa’ está na Internet

A história do “homem da seringa” não resiste a uma simples pesquisa no Google. Uma busca com “seringa”+”aids”+”lenda urbana” no site de buscas retornou, em 17 centésimos de segundo, 2.260 referências. Uma delas lista o caso como uma das “Top Ten lendas urbanas”, junto com a “loira do banheiro”, os “ladrões de órgãos” e o pretenso satanismo da apresentadora Xuxa Meneghel, entre outras histórias fantasiosas.

A lenda, aliás, nem é tão nova: existem registros da história desde 1997, há 14 anos. Uma variação afirma que, ao se sentar em uma poltrona de cinema, uma pessoa sentiu uma agulhada. Ao olhar a poltrona, percebe que existia sobre ela uma seringa – agora devidamente espetada na vítima – e um bilhete que diz “bem-vindo ao mundo da Aids”.

As lendas urbanas são narrativas que se tornam populares entre determinados grupos sociais – ou em populações inteiras, em alguns casos. Em geral, elas partem de um medo disseminado entre as pessoas e se baseiam em uma história aparentemente plausível, transmitida de segunda mão – quem passa a informação diz que conhece alguém, “extremamente confiável”, que teria um parente ou amigo que passou por aquela situação. O interessante sobre esse fenômeno é que, por mais que se apresentem evidências de que as histórias são fantasiosas, sempre surgem “explicações” baseadas em teorias conspiratórias.

Alguns meios de comunicação de massa- como tablóides sensacionalistas e programas populares de rádio e TV – costumavam ser o principal meio de divulgação dessas lendas, até que surgiu a Internet. Com a facilidade de contato fornecida pelos sites de relacionamento e blogs, a rede mundial de computadores se tornou uma maneira fácil de divulgar essas lendas, que, vez por outra, acabam indo parar na grande mídia.

Uma observação mais crítica mostra que muitas dessas lendas são, na verdade, recriações de antigos mitos. Outras têm uma história real como origem, mas são deturpadas ou exageradas enquanto vão sendo passadas adiante.

Lendas e mitos, de Juscelino a Juarez

Em algumas ocasiões, ocorrências que geram comoção nacional acabam gerando lendas. O DIÁRIO DO VALE selecionou alguns desses fatos: a morte de Juscelino Kubitscheck em 1976, a perda da Copa do Mundo de 1982, na Espanha, a morte de Tancredo Neves em 1985, a morte do então prefeito de Volta Redonda, Juarez Antunes, em 1989, e a perda da Copa do Mundo de 1998, na França.

O acidente de Juscelino

Em 1976, um repórter que depois viria a ser chefe de reportagem do DIÁRIO DO VALE, o falecido Dicler Simões, estava entre as primeiras pessoas a chegarem ao local onde um ônibus atingiu o Opala em que viajava o ex-presidente Juscelino Kubitscheck. O político morreu no local do acidente, na Rodovia Presidente Dutra, na altura de Resende.

Até hoje, existem teorias que garantem que Juscelino foi assassinado por agentes do governo militar, mas o caso nunca foi provado.

O doping inexistente dos italianos

Em 1982, o Brasil disputou a Copa do Mundo da Espanha com um time repleto de craques, que é considerado por alguns analistas melhor até do que a seleção que venceu a Copa de 1970, no México. Essa equipe, contudo, caiu diante da Itália – que fazia até então uma campanha que apenas “dava para o gasto” – por 3 a 2, no chamado “desastre do Sarriá”, numa referência ao estádio onde o jogo foi disputado.

Depois da derrota, correram insistentes boatos de que teria sido descoberto um caso de doping na seleção italiana, o que teve inclusive de ser desmentido no ar, ao vivo, por redes de TV. A Itália acabou campeã, derrotando a Alemanha na final – sem que novos boatos de doping surgissem.

O assassinato de Tancredo Neves

Depois de 20 anos de governos militares, em 1984 o mineiro Tancredo Neves foi eleito – indiretamente – presidente da República, mas morreu sem exercer o cargo. O mandato acabou sendo cumprido por seu vice, José Sarney. Oficialmente, Tancredo morreu em 1985, em consequência de uma diverticulite, mas até hoje há quem jure que ele foi assassinado. O caso também nunca foi provado.

O acidente de Juarez Antunes

O sindicalista Juarez Antunes é nacionalmente conhecido como o líder da greve em que três operários morreram dentro da CSN. Ele foi eleito prefeito de Volta Redonda em 1988 e morreu em 1989, pouco mais de um mês após a posse, num acidente rodoviário, quando ia a Brasília. Até hoje, em Volta Redonda, existe quem garanta que não houve acidente e que o então prefeito teria sido assassinado. Novamente, nada foi provado nesse sentido.

A convulsão do Fenômeno

Em 1998, a seleção brasileira que foi à Copa do Mundo da França para defender o título conquistado quatro anos antes nos Estados Unidos teve uma campanha irregular, chegando a perder o terceiro jogo da fase de grupos para a Noruega. Mesmo assim, o time chegou à final contra a França, quando perdeu por 3 a 0, num jogo em que o grande destaque foi o francês Zinedine Zidane.

O fato de Ronaldo Nazário, o Fenômeno, ter passado mal na véspera do jogo e só ter sido escalado minutos antes da partida foi o suficiente para que surgissem boatos que variam de um possível problema conjugal do atleta a uma polpuda quantia oferecida por uma grande empresa para que o time do Brasil perdesse aquele jogo, mas nada comprova que algo desse tipo tenha acontecido.
Fonte: Diário do Vale

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