Ativistas se preocupam com a banalização da Aids, em Manaus

Há 16 anos, quando recebeu a confirmação de ser portador do vírus HIV, o transmissor da Aids, Edson Gonçalves, 46, ficou paralisado, mesmo já imaginando o diagnóstico, já dado anteriormente ao seu parceiro. Era meados da década de 80 e a doença, cujo primeiro registro em Manaus foi feito em 1986, tornara-se um pesadelo maior para os homossexuais que não contavam com os chamados coquetéis de medicamentos e o resultado positivo para o HIV era como um decreto fatal. Mais cedo ou mais tarde, a doença se manifestaria e tomaria sua vida.

Passadas mais de três décadas dos primeiros casos, a Aids já não responde tanto por mortes, mas isso não deve servir para justificar o descaso com que jovens, público alvo do Ministério da Saúde, e também idosos estão lidando com a doença.

Os números não param de crescer. Nem os adoecimentos.

Edson diz que, na verdade, só acreditou que estava com o vírus quando teve tuberculose, uma doença oportunista para o HIV se manifestar.

“Fiquei internado um mês e três dias”, conta ele, explicando que, depois do diagnóstico, a pessoa não pode mais parar de tomar medicamentos e tem de mudar de vida completamente.

“O cuidado com a saúde é fundamental porque qualquer infecção pode ser porta para o vírus se manifestar e isso não é brincadeira. Não se pode relaxar, achar que com você não vai acontecer. Apesar de não estar escrito na cara de ninguém que a pessoa tem Aids, ter essa doença não é fácil e nem simples”, afirma Edson, que gosta de dizer isso, com todas as tintas que pode carregar nas palavras quando dá palestras aos jovens nas escolas.

“Não quero me mostrar como exemplo, mas como resultado de um comportamento inaceitável hoje em dia, quando se sabe dos riscos da Aids”, explica ele, que continua vivendo com o parceiro.

Banalização
O cuidado com a saúde e a ingestão de medicamentos diariamente são as garantias que ele e o parceiro têm para evitar uma manifestação do HIV.

O fato de se viver com o vírus não pode ser motivo para preconceito, mas um exemplo para as pessoas evitarem comportamentos de risco, afirma Edson, na tentativa de chamar a atenção dos pais e dos educadores para intensificarem as orientações.

A falta disso é verificada na quantidade de meninas com idade de 11, 12 e 13 anos grávidas.

Outra questão é o aumento do número de idosos com Aids, dado o comportamento de risco deles.

Edson, que se tornou um ativista da Rede de Amizade e Solidariedade de Luta contra a Aids, após ter se aposentado, diz que a Aids o obrigou a reaprender a viver. Graças ao atendimento gratuito assegurado na Fundação de Medicina Tropical Heitor Dourado (FMTHD), ele diz que não se vive mais com uma guilhotina na cabeça.

Na unidade de saúde do Estado, médicos de várias especialidades são disponibilizados para atender aos pacientes.

“Mas não se pode esquecer que a doença não tem cura, por isso não se deve facilitar”, afirma ele.

A banalização da Aids também é causada pela ausência de imagens de pessoas doentes, segundo ele.

“Como a condição do cantor Cazuza, que se expôs na mídia chorando as dores de uma morte anunciada”. Em verdadeira catarse pública, Cazuza alertava na letra de “Boas Novas” ter visto a cara da morte e acrescentava, sem meias palavras e dolorosamente, que ela estava viva.

A Aids calou o poeta em 1990 e continua provocando dores que podem ser evitadas com o uso do preservativo nas relações sexuais.

Casos novos
Segundo a Coordenação Estadual de DST/Aids da FMTHD, de 2007 a 2011, foram notificados 3.431 novos casos de Aids no Amazonas. Neste mesmo período, 566 pessoas morreram vítimas da doença.

Existem 5.157  pessoas em tratamento atualmente no Estado de casos registrados nos últimos cinco anos.

Cuidados
O garçom Luiz Lima da Silva Júnior, 33, achou que a vida tinha acabado e resolveu “cair no mundo”, usar drogas e viver perigosamente quando soube, há três anos, que era portador do vírus HIV.

Ele foi contaminado num município do interior do Amazonas quando manteve relações sexuais com uma garota e o preservativo rompeu. Ao comunicar o fato, a jovem revelou ser soropositiva.

“Fiquei desorientado e achei que ia morrer”, lembra ele, cuja família só soube do fato quando uma pneumonia o levou à FMTHD.

Nesse momento, sentiu o peso do preconceito.

“Eles separaram minha colher, copo, prato e roupas. Fiquei tão depressivo que deixei de tomar o medicamento”, contou Luiz, que só quando desenvolveu a neurotoxoplasmose, infecção no cérebro, resolveu se cuidar.

Separado, pai de um casal de filhos, ele tem o apoio da família hoje, mas reconhece que o preconceito deixa o soropositivo mais fragilizado.

Sempre que é chamado, dá palestra para conscientizar os jovens para se protegerem.

“Os medicamentos são fortes, causam muitas reações”, afirma Luiz, que teve que se aposentar por conta das sequelas da doença. Para ele, não há tempo a perder. É preciso falar para se evitar que mais pessoas sejam contaminadas com o HIV.

Fonte: A Crítica

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s