Pacientes com HIV pedem mais atenção aos profissionais de medicina

Filho de médico, o representante das pessoas vivendo com HIV e aids no Conselho Nacional de Saúde, Carlos Alberto Duarte, de Porto Alegre, conta que uma das discussões mais intensa que tem com seu pai, hoje com 83 anos, é sobre a mudança no perfil dos profissionais de medicina. “Meu pai não aceita quando eu digo que agora muitos médicos estão mais preocupados no que vão ganhar, seja financeiramente ou status, por exemplo, do que em salvar ou ajudar pessoas”, comenta.

Para Carlos Duarte, a aids veio mostrar aos médicos que o tratamento de uma doença pode exigir uma enorme integralidade de especialidades da área da saúde. “Nem sempre é apenas um infectologista tratando o HIV, mas sim infectologistas, cardiologistas, nutricionais, fisioterapeutas, entre outros profissionais, ajudando no tratamento da aids e nos efeitos adversos”, explicou.

O ativista acredita que essa complexidade para o tratamento da aids contribui para que muitos pacientes não recebam bons atendimentos médicos. “Muitos vezes, os pacientes com HIV são mal tratados. Os médicos acabam não seguindo toda essa demanda que exige a doença e só remediam. Os medicamentos antirretrovirais são essenciais, mas apenas eles não resolvem os problemas de saúde das pessoas com aids”, disse.

Em tratamento desde 1996, quando o coquetel antirretroviral se tornou gratuito no sistema público de saúde, Carlos Duarte, informa que até hoje teve apenas dois infectologistas e que sempre foi muito bem atendido. “Mas isso também tem o peso de eu ser filho de um médico que conhecia esse infectologistas”, justifica.

Nair Brito, liderança do Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas (MNCP), se trata em São Paulo com o mesmo médico há 15 anos. Nair é uma defensora da boa relação médico-paciente. “Tenho com meu médico uma relação de proximidade e conseguimos realmente conversar sobre o que é preciso. Ter um médico fixo dá mais conforto e praticidade na consulta e dá segurança para as duas partes”, diz.

A ativista reclama que os médicos que não têm familiaridade com o HIV deixam a desejar no atendimento, pedindo exames que não são necessários ou fazendo perguntas que já não se fazem mais, apenas pela condição de soropositiva. “É como se eu voltasse 30 anos no tempo”, critica. “Fora isso, não tenho confiança nos médicos e fico aborrecida com eles. Recentemente fui a um endocrinologista que me deixou apavorada com o resultado dos exames, e foi somente o meu médico fixo que me tranquilizou e explicou a situação. Esses médicos não têm a experiência em atendimento e acabam assustando o paciente”, complementa.

Beto Volpe, de São Vicente, está em tratamento há 23 anos e conta que já passou por médicos de todos os tipos. Na opinião do presidente do Grupo Hipupiara, a relação entre um paciente com HIV e seu médico é “até que a morte os separe”, e por isso é tão importante a união entre as duas partes. “O médico tem que ter uma escuta super atenta, tem que se libertar de muitos dogmas que aprende na faculdade de medicina e se abrir para outras percepções, e a aids mostra muito bem isso. Embora a doença seja a mesma, ela está ocorrendo em circunstâncias diferenciadas. É necessário ter essa abertura de pensamento e percepção, e que as partes se unam e dialoguem não só na questão clínica como política. O comprometimento tem que ser com a saúde e com a vida”, diz o ativista.

Uma das maiores preocupações de Beto Volpe é com os efeitos colaterais do HIV. Para ele, os médicos não estão conseguindo acompanhar a mudança de perfil da doença, por conta, entre outros fatores, de sua rotina super corrida. “Os efeitos adversos pegam os médicos de surpresa, são os médicos mais abertos que acabam trazendo essas informações, por isso essa necessidade da escuta atenta”, diz.

Segundo o Conselho Federal de Medicina, em 2011, havia aproximadamente 371 mil médicos em exercício no Brasil, mas para se atingir a taxa de 2,5 médicos para cada mil habitantes – estabelecida pelo governo – a ser alcançada até 2020, o total de médicos precisa pular para 520 mil.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um médico para cada mil habitantes. Mas devido às características de sua demografia – com grupos isolados em diversos estados, contrastando com a grande densidade nas capitais – o Brasil tem áreas inteiras sem um único médico.

Dezoito de outubro foi escolhido como Dia do Médico por ser o dia de homenagem a São Lucas, padroeiro da medicina, conforme a tradição litúrgica. Segundo o catolicismo, São Lucas (ou Lucano) exercia a profissão de médico e também tinha vocação pela pintura. São Lucas nasceu na Turquia no século I, quando esta ainda se chamava Antióquia. Discípulo de São Paulo, ele o seguiu em missão, sendo chamado pelo religioso de “colaborador” e “médico amado”.

Fonte: Agênia de Notícias da AIDS

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