Em debate com jornalistas, ministro Padilha elogia cobertura sobre aids

O debate, segundo ressaltou o infectologista e diretor do Emílio Ribas, Davi Uip, foi dividido nos módulos Mídia Poder Judiciário “por representarem segmentos da sociedade que têm influência fundamental na resposta contra a epidemia.”

Em mensagem enviada numa gravação de vídeo, o governador Geraldo Alckmim elogiou a realização do evento, considerando essa reunião “muito valiosa para eleger as prioridades no combate da doença.”

São Paulo notificou até o último mês de junho um total de 217.390 casos de aids em todo o estado. Embora o patamar de novas infecções esteja estável e a taxa de óbito caindo, em média oito pessoas morrem em decorrência do HIV diariamente no estado.

Para o ministro Padilha, um dos desafios nacionais é garantir uma boa qualidade de vida aos infectados, sobretudo, para aqueles que vivem com o vírus há vários anos e estão mais expostos aos efeitos dos medicamentos e às doenças oportunistas. Formado em medicina com especialidade em infectologia, o chefe da Pasta da Saúde reforçou também a atenção especial que deve ser dada aos homens jovens que fazem sexo com homens, responsáveis por cerca de metade de novos casos de HIV no País. “Essa nova geração não vivenciou a morte constante de pessoas com aids, a época em que ídolos e famosos mostravam em público as dificuldades que é ter essa doença… Talvez por isso tenham relaxado um pouco na prevenção”, comentou.

Dados recentes divulgados pelo Ministério da Saúde apontam que houve um aumento de 31.8% para 46.6% no número de novos casos entre homens que fazem sexo com homens no grupo entre 15 a 24 anos, entre 1998 e 2010.

O presidente do Tribunal da Justiça do Estado de São Paulo, Ivan Ricardo Sartori, contou que a grande demanda de questões sanitárias no judiciário, como o pedido de medicamentos via liminar judicial, incentivou a criação de um link especial no site oficial do Tribunal com informações sobre aids e outras doenças “para que os juízes não tomassem decisões às cegas”.

Por carta, ampliada em projeção durante o evento, o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, também parabenizou a realização do debate e afirmou que o tema tem “total apoio” da sua Pasta.

Ministro Padilha e jornalistas concordam com necessidade de ´humanizar´as notícias sobre aids 

Para introduzir o debate Aids e Mídia, David Uip mostrou um panorama da história da pandemia através de notícias, destacando reportagens recentes que trazem previsões sobre um possível fim da doença. “Acredito que houve uma banalização da aids pela imprensa, mas nós, médicos e especialistas técnicos no assunto, temos a obrigação de alertar que esta doença ainda está longe de ser controlada”, comentou.

Heródoto Barbeiro, da TV Record News, falou sobre a falta de espaço de notícias positivas na imprensa. “Creio que em muitos veículos de comunicação ainda se tem aquele pensamento Goog News, No News(notícia boa não é noticia)”, comentou o jornalista, sugerindo que os avanços mundiais contra a aids pudessem estar contribuindo para a diminuição de interesse da mídia pelo tema.

O infectologista e consultor do programa da TV Globo Bem Estar, Caio Rosenthal, ressaltou, no entanto, que ainda há “infelizmente” muitos fatos ruins para reportar sobre esta doença, como o que ele definiu por “epidemia dentro da epidemia”. Segundo Caio, populações específicas, como homens que fazem sexo com homens e travetis, chegam a somar em algumas regiões de São Paulo uma prevalência média do HIV próxima a 15%, equiparada às médias nacionais de países africanos. “A mídia não tem dado destaque pra isso. Falta jornalismo investigativo mostrando o que está por detrás de todas essas notícias boas divulgadas recentemente”, comentou.

Dr. Rosenthal destacou também que percebe uma tentativa de diminuição do número de leitos destinados aos pacientes com HIV e aids em São Paulo. “Os portadores do HIV precisam de atendimento diferenciado. Não se deve fechar os leitos exclusivos para eles”, comentou.

William Waack, da Rede Globo, acredita que a mudança no perfil da percepção da sociedade sobre a aids refletiu na cobertura jornalística sobre o tema. “Era uma doença desconhecida, que passou a trazer medo e pânico e hoje pode ser controlada graças às soluções tecnológicas, ou seja, a aids foi da ignorância para a complacência”, explicou.

Apresentador do Jornal da Globo, Waack disse que, na sua opinião, a abordagem da teledramaturgia brasileira sobre questões sociais, como a aids, está mais avançada do que o telejornalismo.

Para a editora executiva da Agência de Notícias da Aids, Roseli Tardelli, o assunto em debate tem um significado especial. “De jornalista, passei a ser também um pouco ativista”, disse ao lembrar do seu envolvimento pessoal com a doença ao descobrir que seu único irmão estava infectado com HIV.

Roseli liderou publicamente uma luta contra uma operadora privada de saúde que recusou a atender seu irmão. Ela expôs o assunto na mídia e conseguiu por decisão judicial o direito de ter seu irmão atendido, mas as poucas possibilidades de tratamento na época impediram a recuperação de Sérgio Tardelli, que faleceu em novembro de 1994.

Hoje, acompanhando de perto o trato da imprensa sobre o tema e coordenando uma agência de notícias especializada em aids, Roseli sugere mais “humanização” e “criatividade” na cobertura do assunto. “Sentimos que muitas vezes falta mostrar o lado das pessoas vivendo com HIV, que apesar de todos os avanços, a aids não pode ser considerada uma doença crônica. Viver com aids é muito difícil”, comentou.

Ao falar sobre uma iniciativa desta Agência de publicar no final de semana do próximo 1° de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a Aids, algumas boas notícias sobre aids publicadas em 2012, Roseli afirmou que gostaria de “dar sempre boas notícias, mas não é possível”. Ela lembrou do possível fim da Portaria n°2313 do Ministério da Saúde, que garante verbas específicas para o combate da aids nos estados e municípios e fez referência à faixa estendida pelos usuários do Hospital Emílio Ribas, que reclamam da falta de médicos e leitos na unidade. “Não gostaríamos de ter que dar essas notícias, mas se são problemas que existem, precisamos dar”, comentou.

O ministro da Saúde, que falou depois de todos os jornalistas, concordou com Roseli. “Acho que no geral a imprensa tem feito boas coberturas sobre o tema, mas esta humanização citada pela Roseli muitas vezes desaparece das notícias. Acho que falta sim dar mais espaço para os problemas vividos pelas pessoas com HIV”, finalizou Padilha.

Secretário da Saúde fala sobre máfia na judicialização e provoca polêmica com advogada

O jornalista Joseval Peixoto, da Rádio Joven Pan, coordenou o módulo de debate sobre Aids e Poder Judiciário, e conduziu os participantes a falarem sobre as ações judiciais movidas contra o governo na área da saúde.

Segundo o Secretário de Estado da Saúde, Giovani Guido Cerri, o poder público gastou em 2011, por exemplo, mais de R$ 800 milhões com ações judiciais de medicamentos, que muitas vezes poderiam ser substituídos por outros já disponíveis na rede pública. “Isso traz um grande prejuízo ao Estado e muitas vezes é feito por uma máfia, composta de advogados, médicos e representantes da indústria farmacêutica, que visa o lucro com a compra do remédio”, comentou. “A judicialização acaba provocando a diferença no atendimento, pois quem tem condição financeira de contratar médico entra na justiça, mas o pobre acaba ficando sem o medicamento”, acrescentou.

A advogada Rosana Chiavassa, especialista em causas de saúde, discordou do secretário e disse ter ficado “indignada” com a referência feita por ele à máfia de advogados. “O senhor não pode generalizar. Se esta máfia existe quem faz parte dela é um pequeno grupo de advogados… Como advogada, me sinto ofendida por esta afirmação”, frisou.

Rosana ressaltou ainda que há casos de pessoas com baixo poder aquisitivo que entram na justiça para receber medicamentos. “Eu defendo e vou continuar defendendo até o fim dos meus dias o direito das pessoas conseguirem na justiça medicamentos que vão mantê-las vivas”, comentou.

A repórter da revista Época, Cristiane Segatto, vencedora do Prêmio ESSO de Jornalismo, por um trabalho que abordou a judicialização na saúde, definiu a discussão de Guido Cerri e Chiavassa como “a luta do certo contra o certo”. Para ela, assim como o paciente tem direito de procurar vias legais para ter acesso aos melhores medicamentos, o governo tem razão em discordar das ações judiciais que visam tratamentos mais caros, mas que poderiam ser feitos de maneira alternativa na rede pública.

A infectologista Rosa Alencar, coordenadora-ajunta do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, falou sobre o sucesso obtido com a criação de uma Câmara Técnica, formada por infectologistas de vários municípios do estado, para a análise e aprovação de novos medicamentos contra a aids. “Com esta iniciativa, passamos a fazer compras administrativas dos remédios mais modernos, zerando, praticamente, os pedidos de remédios contra a aids via ação judicial”, contou.

O módulo contou também com a participação de Roseli Tardelli, que falou sobre a conquista na justiça do atendimento do seu irmão por um plano privado de saúde, e do jurista e chefe de gabinete da Secretaria de Estado da Saúde, Reynaldo Mapelli Júnior.

Pacientes e funcionários do Emílio Ribas protestam

No final das discussões, Denise Silveira, conselheira do Centro de Referência e Treinamento de DST/Aids de São Paulo, pediu para falar e disse da plateia que os usuários do sistema público de saúde se sentiam discriminados por não terem sido convidados para fazerem parte deste debate.

Chorando, ela denunciou que os hospitais do estado estão “sucateados” e que não recebem portadores do HIV. “Eles mandam para os serviços especializados, mas nessas unidades não há mais vagas também”, disse. “Para eu estar de pé aqui falando, preciso da ajuda de nove especialistas que atendem problemas relacionados à aids. Por isso, peço, aqui que não sejam fechados os leitos especializados para as pessoas com HIV e aids”, finalizou.

Funcionários do Emílio Ribas também divulgaram aos participantes do evento um manifesto pedindo a soberania do Instituto frente a um convênio de cooperação firmado há cinco anos, envolvendo o Hospital das Clínicas, a Faculdade de Medicina da USP e a Fundação Faculdade de Medicina. Segundo o documento, “é extremamente salutar que instituições com características distintas, algumas complementares e outras comuns, somem esforços para atingir objetivos maiores e inovadores. Mas faz-se necessário preservar a essência e a soberania de cada uma delas. Caso contrário, há o risco da somatória se converter em subtração de valores”.

Já o Sindicato dos Trabalhadores da Saúde de São Paulo(SindSAúde-SP) afirma em outro documento que “o descaso do governo do estado”, responsável pela administração do Emílio Ribas, resultou em graves problemas, como falta de medicamentos, equipamentos e profissionais. Para eles, os convênios com Fundações só pioram a situação.

Fonte: Agência de Notícias da AIDS

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