Sul e Norte do País têm maiores taxas de transmissão vertical. Ativistas pedem atenção com realidades locais da epidemia

Embora a transmissão vertical do HIV possa ser evitada caso a mãe adote algumas medidas profiláticas, que incluem o tratamento da aids durante a gravidez, o Brasil ainda não conseguiu eliminar essa forma de contágio, contabilizando 745 casos em 2011.

Estudos com parturientes indica que, em 2004, 63% das mulheres gestantes realizaram o teste no País. Entre 2010 e 2011, esse índice foi de 84%, um aumento de 21 pontos percentuais.

O Boletim Epidemiológico divulgado nesta semana contabiliza 5,4 casos de aids em menores de cinco anos a cada 100 mil habitantes. O número é ligeiramente menor que o de 2010 (6 casos para 100 mil), mas ainda considerado inaceitável por ativistas e pelo próprio governo.

“O teste precisa ser ofertado para 100% das gestantes. Ainda não estamos satisfeitos com esses 84% de cobertura”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, nesta quinta-feira, 22 de novembro, durante encontro com jornalistas em São Paulo.

Se a média nacional já é considerada alta, ainda há as disparidades regionais. O Norte e Sul do País se destacam com taxas maiores do que a média nacional, com 7,1 e 8,6, casos de aids respectivamente em menores de cinco anos a cada 100 mil habitantes. O Rio Grande do Sul é o estado com o maior índice do País, chegando a 16,5 em 2011, número maior que em 2010.

Márcia Leão, do Fórum de ONGs/Aids do Rio Grande do Sul, culpa a falta de investimentos. Segundo ela, o estado sofre há mais de 10 anos com uma redução de recursos na área. “A aids saiu da agenda política do município de Porto Alegre, do estado e do governo federal também. O resultado é o crescimento desta epidemia, não só na transmissão vertical mas em todas as variáveis”, disse.

A ativista disse que há dois anos a atitude das coordenações estadual e municipais de aids começou a mudar, mas que o processo ainda está muito aquém do necessário. “Conseguimos enxergar uma luz no fim do túnel, mas isso não vai se resolver em um ou dois anos, porque sofremos um período muito grande de desmonte. E é necessário que se invista muito mais do que é feito atualmente”, criticou Márcia.

A respeito da gravidade da epidemia no estado, a ativista diz que a epidemia no Rio Grande do Sul não é como no resto do Brasil, não sendo tão concentrada e beirando uma generalização: “é muito maior do que seria tolerável”, disse. Para ela, não há uma perspectiva rápida de melhora: “Eu gostaria de dizer que nos próximos anos vamos ver os números estagnarem, mas não posso garantir isso. Se continuar do jeito que estamos, as altas taxas ainda ficarão por muito tempo”.

Região Norte

A região Norte do país, embora tenha o estado com a menor taxa brasileira de transmissão vertical a cada 100 mil habitantes (Tocantins, com 1,6 casos), também registra uma média maior que a nacional, puxada especialmente pelos estados de Rondônia e Amazonas (com 10,1 e 8,8 casos, respectivamente).

José Rayan, coordenador Nacional da Rede de Jovens Vivendo com HIV/Aids, residente em Manaus, pontua que o tamanho do estado e o fato de alguns lugares só serem acessíveis de barco são obstáculos no trabalho de prevenção. “O Amazonas é um estado muito vasto e que apresenta alguns problemas de logística que dificultam o acesso à prevenção, ao tratamento e ao pré-natal”, disse.

Ele conta que pelo fato de vários municípios não terem os serviços adequados, muitas pessoas têm que se deslocar para fazer o tratamento, o que dificulta o processo.
Apesar da incidência mais alta que a média nacional, o Amazonas conseguiu reduzi-la em quase 4 pontos em relação a 2010. Rayan atribui esta queda ao Projeto Nascer, voltado para a assistência de gestantes com HIV e aids. “Esta iniciativa conseguiu dar uma resposta, mas precisa ser ampliado e fortalecido, principalmente no interior, para que esses números caiam ainda mais”, disse. Para o jovem ativista, é necessário pensar cada vez mais na realidade local para combater a epidemia.
O representante do Movimento Nacional de Luta Contra a Aids no Conselho Nacional de Saúde, Carlos Alberto Duarte, concorda. Ele acredita que a epidemia de aids ‘não pode ser olhada por um número só’. “Precisamos olhar cada estado, cada região e analisar esta epidemia. Precisamos analisar cada tipo de epidemia que existe no País”, disse.

Essa opinião também é reforçada por Francisco Rodrigues dos Santos, do Fórum de ONGs/Aids do Pará. Segundo ele, o combate à transmissão vertical do HIV deve ter o entendimento que o enfrentamento é diferente em cada região. “As mulheres não são iguais no Brasil. Os entendimentos de sexualidade, feminilidade, etc, também são diferentes”. Para Francisco, a redução da transmissão vertical está ligada ao tratamento da mulher como um todo, e por isso ele cobra o plano de combate à feminização da aids no país. “Foi criado pelo Departamento, mas não chegou a cumprir todas as metas e não se adaptou bem ao SUS. Estamos preocupados com isso”.

O ativista paraense diz que a Rede Cegonha não basta para resolver este problema, pois foca a mulher mãe. “Mas antes de ser mãe, ela é mulher. A Rede Cegonha não atinge todas as mulheres”, diz. Francisco acha necessária a discussão de que tipo de mulher está sendo mãe, e não só a prevenção da transmissão vertical. Ele define a taxa do estado como preocupante. O Pará apresenta uma incidência de aids em menores de cinco anos parecida com a média nacional, de 5,6 casos a cada 100 mil habitantes. Mas para Francisco, “deveria estar abaixo de um”.

Fonte: Agências de Notícias da AIDS

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